Saúde mental da mulher: precisamos fazer mais por ela

A estudante universitária Karine Mezzari, hoje com 21 anos, tinha só oito quando descobriu o peso de ser mulher. Era uma menina magra demais, diziam. Começava lá uma difícil relação com o próprio corpo e uma trajetória marcada por uma dura contradição. Enquanto os números da balança viviam denunciando os supostos quilos a menos, os […]

Por
11 Min

Saúde mental da mulher: precisamos fazer mais por ela

A estudante universitária Karine Mezzari, hoje com 21 anos, tinha só oito quando descobriu o peso de ser mulher. Era uma menina magra demais, diziam. Começava lá uma difícil relação com o próprio corpo e uma trajetória marcada por uma dura contradição. Enquanto os números da balança viviam denunciando os supostos quilos a menos, os comentários de familiares e colegas de escola pareciam oprimir como toneladas.

“Comecei a comer muito mais do que eu conseguia para tentar engordar. Era quase uma tortura. Eu me esforçava para ganhar corpo, ganhar curvas, para me sentir mais bonita e tentar me encaixar nos padrões da época”, relata.

Aos dez anos, o sofrimento intenso motivou o primeiro episódio de automutilação. Outros vieram depois, em uma tentativa de tornar visível na pele a angústia que lhe pesava na alma.

“Eu sabia que era sério o que estava fazendo, mas não conseguia parar. Para piorar, algumas colegas sabiam que eu me mutilava e ameaçavam contar para a diretora. Um dia, fizeram isso”, lembra. No fim, foi o bullying que a levou ao primeiro contato com a psicóloga da escola.

Saude-mental-da-mulher-precisamos-fazer-mais-por-ela-1.jpg Desde criança, Karine lida com a dor de conviver com estereótipos sobre o corpo feminino | Foto: Arquivo pessoal

Desde então, Karine passou por alguns terapeutas até encontrar a profissional com quem atualmente faz acompanhamento psicológico. Ela diz que se sente melhor, apesar de ser acometida de vez em quando por crises de ansiedade. Mas sabe que parte da sua infância e adolescência poderia ter sido bem menos sofrida se não tivesse sido exposta tão cedo às pressões em torno de padrões estéticos que incidem sobre a mulher.

De acordo com a psicóloga Carina Mengue, a imagem corporal feminina está culturalmente associada a uma série de atributos que demarcam o papel da mulher na sociedade patriarcal e machista. Essa relação de opressão e controle, que colocou a mulher em posição de submissão durante séculos, acaba refletindo não apenas em aspectos comportamentais, mas também na imagem física que se espera dela.

“De um lado, a ideia de beleza e doçura vem ligada à mulher como mãe e cuidadora, de outro, se valoriza aquela figura sedutora e atraente. Nos dois casos, existe claramente uma idealização que aprisiona a mulher em estereótipos. Esse afastamento da mulher real, que é diversa, tende a gerar sofrimento naquelas que não se encaixam nos padrões”, explica.

Embora as últimas décadas tenham sido de avanços na luta contra as desigualdades de gênero, ainda está bem distante o equilíbrio entre os papéis masculino e feminino na vida familiar, social e profissional. Carina diz que a histórica opressão sobre a mulher, que ainda hoje resiste em todas as camadas da sociedade, acaba por submetê-la a inúmeras situações de vulnerabilidade.

“A mulher vem conquistando muitos espaços e o mercado profissional é um deles. Mas ainda estamos longe de uma configuração social que permita lidar com as pressões da vida de forma mais igualitária entre homens e mulheres. Elas ainda acumulam mais atribuições, têm duas, três jornadas, se considerarmos a atenção que acabam dando aos filhos e à casa. Essa sobrecarga é crítica para a manutenção da saúde mental”, enfatiza Carina.

A psiquiatra Ritele Silva, que integra a Comissão de Estudos e Pesquisa em Saúde da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), reforça que o estresse negativo, aquele que ultrapassa os limites da resiliência, tem sido relacionado a vários transtornos psiquiátricos.

“Situações de vulnerabilidade, agressões físicas e psicológicas e pressões intensas relacionadas a questões econômicas influenciam negativamente a saúde mental da mulher”, afirma.

Descompasso

Mesmo aquelas mulheres que não enfrentam condições de vida desfavoráveis precisam lidar com fatores de preocupação que normalmente escapam aos dilemas masculinos. O espaço que a mulher vem conquistando no mercado de trabalho e na vida social nem sempre está adequado ao seu relógio biológico.

A administradora Andréia Luges Marques, de 41 anos, sempre desejou a maternidade. Mas a vivência desse momento foi adiada por causa de outros projetos também importantes para ela. Dedicou-se aos estudos, trabalho, namoro, casamento.

“Eu sempre desejei ser mãe, mas queria respeitar o meu momento”, diz.

Aos 37 anos, com a vida mais estruturada, decidiu que havia chegado a hora. Fez acompanhamento médico, realizou os exames necessários e todos os resultados indicavam a possibilidade de gravidez, apesar dos riscos comuns a uma maternidade um pouco mais tardia. Foi quando vieram as primeiras frustrações.

“Você vai tentando, vai depositando as suas expectativas, faz tudo muito certinho, de acordo com seu ciclo ovulatório, e quando não acontece em um mês, dois, três, quatro, cinco, aí você vai ficando um pouquinho cansada. E vem uma sensação de impotência e dúvida. Será que vem, será que não vem?”.

Administrar a incerteza, segundo ela, não é fácil. Foram dois anos de tentativas e espera até chegar a notícia tão aguardada. Andréia engravidou naturalmente aos 39 anos. Foi um momento de felicidade intensa, compartilhado com o companheiro e familiares. Começaram os preparativos para a chegada do bebê e todo o envolvimento emocional para a expansão da família quando, aos quatro meses de gravidez, a vida mudou para sempre.

“Era dia de ultrassom. Acordei plena, tomei um bom banho, marido também. Eu estava bem, sem qualquer sintoma. Chegamos lá e o médico até brincou: ‘vamos ver como é que está esse meninão?’ Eu deito, começa o exame, o médico olha para mim e fala: ‘é mãe, infelizmente, não evoluiu. O coração parou’. Quase que o meu coração parou na hora”, conta.

Começou, então, a fase mais difícil para Andréia. Após o exame, veio a curetagem para a retirada do feto e todo o abalo físico e psicológico provocado pela perda.

“O vazio interno é enorme. É aí que começa a sua batalha”, relata emocionada. “Porque é um vazio que nada ocupa. O luto é um misto de sentimentos desconexos. Ao mesmo tempo que você tenta se conscientizar, você também sente raiva. Ao mesmo tempo que você precisa aceitar, você nega. Ao mesmo tempo que você precisa se amar, você se sente incapaz. Isso mexe com a nossa essência feminina”.

Pela primeira vez, Andréia precisou tomar medicamentos para depressão. Além de todo apoio que recebeu da família, também começou a participar de grupos de ajuda, dividindo experiências com outras mulheres que passaram por situações parecidas. Hoje ela se sente melhor e até se apresenta nas redes sociais como “mãe de anjo”.

“Estou em um processo de aceitação. Antes eu negava tudo. Agora não mais. Minha luta vai seguir, porque eu não me resumo apenas em ser mãe. Eu sou mulher, eu tenho uma vida, eu tenho sonhos, mas dizer que a dor passou, não. A gente convive com ela”, pondera.

Saude-mental-da-mulher-precisamos-fazer-mais-por-ela-2.jpg Aprendendo a conviver com o luto, Andréia ainda pensa na maternidade, embora saiba dos limites do relógio biológico | Foto: Arquivo pessoal

A vivência da maternidade, por mais que esteja frequentemente associada a um momento positivo e feliz na vida da mulher, nem sempre corresponde à idealização culturalmente ligada a esse momento. Para a psicóloga Carina Mengue, lidar com esse descompasso é um desafio.

“A maternidade é vivida de modo singular para cada mulher. Algumas têm filhos e amam a experiência, outras tentam, mas não conseguem, existem aquelas que engravidam sem desejar e depois aceitam e vivem bem esse momento, outras são avessas à ideia de ser mãe… Independentemente do que deseja cada mulher, precisamos saber que, como toda vivência marcante da vida, ela pode vir com muitas alegrias e muitas dificuldades, também”, argumenta.

Saude-mental-da-mulher-precisamos-fazer-mais-por-ela-3.jpg Atuando há 14 anos como psicóloga, Carina Mengue reforça a importância do cuidado com a saúde mental da mulher | Foto: Arquivo pessoal

A dimensão psicológica é apenas uma parte do que pode justificar a maior prevalência de transtornos psiquiátricos em mulheres.

“Vários estudos têm evidenciado que as mulheres podem apresentar taxas mais elevadas ao longo do ciclo da vida em alguns transtornos psiquiátricos, como o transtorno depressivo maior e de ansiedade, quando comparadas aos homens, indicando que existem fatores que contribuem para essa condição”, esclarece a psiquiatra Ritele Silva.

Hormônios

Ainda é necessário avançar muito nas pesquisas, porém, já existem diversas evidências de que, no aspecto biológico, as oscilações hormonais relacionadas ao ciclo reprodutivo estão na origem de parte dos transtornos. Essas alterações ocorrem de forma mais drástica em momentos específicos da vida da mulher, como a menarca, períodos pré-natal, perinatal, puerpério e menopausa, mas também a cada mês com o ciclo menstrual.

Saude-mental-da-mulher-precisamos-fazer-mais-por-ela-03.jpg Além de psiquiatra, Ritele Silva é pesquisadora em saúde mental da mulher, ligada à Associação Brasileira de Psiquiatria | Foto: Arquivo pessoal

“Um exemplo que pode ser citado é o transtorno depressivo maior, que se torna mais frequente nas mulheres adultas e tem seus números semelhantes entre homens e mulheres após a menopausa, indicando o envolvimento hormonal, além de outras caraterísticas. Pode-se citar, também, a depressão perinatal.  Porém, outros fatores como ambientais, traumas no início da vida e genéticos têm um papel importante na fisiopatologia de vários transtornos psiquiátricos, indicando a associação de vários elementos”, observa Ritele.

E veio a pandemia

Três anos atrás seria difícil imaginar que a condição de saúde mental da população global sofreria um abalo tão drástico. Ainda mais difícil seria prever que esse momento turbulento teria origem em um parasita microscópico. O surgimento do SARS-CoV-2, vírus da Covid-19, não apenas provocou inúmeras mortes como fez aumentar os índices de transtornos mentais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima em mais de 25% esse crescimento.

Mais uma vez, as mulheres parecem ter sido as mais impactadas. De acordo com Ritele, alguns estudos em andamento mostram associação de piora ou maior prevalência dos sintomas psiquiátricos nas mulheres durante a crise sanitária, como níveis elevados de estresse, sintomas depressivos e ansiosos.

“Alguns fatores parecem estar associados a essa situação, como o distanciamento social, as sobrecargas de trabalho e a violência contra a mulher. História de transtornos psiquiátricos, como ansiedade e depressão, também parecem contribuir para essa condição. Mas ao longo do tempo poderá ser avaliado o real impacto da pandemia na saúde mental da mulher”, acredita Ritele.

Em termos numéricos, a mulher acabou sendo a principal agente de linha de frente no enfrentamento da pandemia. Em hospitais, por exemplo, enfermeiras, técnicas de enfermagem e mulheres auxiliares de serviços gerais tendem a ser maioria. No ambiente doméstico, elas também acumularam cargas de trabalho.

“A tradição cultural das mulheres como cuidadoras exigiu delas, principalmente, o acompanhamento do ensino remoto dos filhos em casa. Muitas precisaram continuar trabalhando, mas não tinham com quem deixar os filhos. Outras tinham a preocupação extra de sustentar a família”, observa a psicóloga Carina Mengue.

A situação de confinamento, que gerou mais tensão, conflitos familiares e até abuso de álcool, fez aumentar índices de violência doméstica. É o que ficou demonstrado na mais recente edição da pesquisa “Visível e Invisível – A vitimização de mulheres no Brasil”, produzida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Datafolha, publicada no ano passado. Foram ouvidas 2079 pessoas, entre homens e mulheres de 130 municípios brasileiros, entre os dias 10 e 14 de maio de 2021.

Saude-mental-da-mulher-precisamos-fazer-mais-por-ela-Infografico.jpg

Erradicar a violência contra a mulher, seja ela física ou psicológica, depende de uma mudança cultural. Para Carina, essa transformação, embora lenta e difícil, precisa ser encarada como um compromisso urgente de toda a sociedade.

“É uma luta das mulheres, mas precisa ser dos homens também. Superar todas as formas de opressão leva tempo, por isso não é possível adiar esse movimento de transformação. A saúde mental da mulher já tem alguns fatores de risco biológicos, não podemos mais aceitar que estigmas e preconceitos culturais sejam agravantes”, ressalta.