“Temos tudo para servir à francesa, mas só oferecemos arroz com feijão”

Natural de Itajaí, mas há mais de 30 anos morando em Balneário Camboriú, o empresário Hélio Dagnoni é vice-presidente da Câmara de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-SC). O setor turístico é apenas uma de suas atividades, uma vez que também atua nos ramos de confecções e imobiliário. Técnico em Contabilidade, Dagnoni é do tipo que não espera, mas faz acontecer. Com um dinamismo contagiante, ajudou na criação do Observatório do Turismo Catarinense da Fecomércio e está à frente do movimento que pretende unificar os esforços das 12 instâncias turísticas do estado em busca de soluções comuns e de um melhor aproveitamento das potencialidades de Santa Catarina. Segundo ele, se trabalharem juntos e em sintonia, poder público e iniciativa privada podem rapidamente elevar de 13% para 20% a fatia do Produto Interno Bruto (PIB) estadual que vem do Turismo.

  

[PeloEstado] – A Fecomércio-SC divulgou o resultado da pesquisa sobre o Turismo no Litoral, temporada 2019. Como foi?

Hélio Dagnoni – Na comparação com as últimas temporadas, o que chamou a atenção é que o gasto médio por visitante diminuiu. Ficou mais consolidada a certeza de que quem sustenta o Turismo catarinense é o brasileiro. São visitantes internos, do estado mesmo, que circulam entre regiões, e muitos paranaenses, paulistas, gaúchos. Temos um litoral de 500 quilômetros e o pessoal vem para curtir a água em temperaturas mais agradáveis e as belezas incomparáveis das nossas praias.

 

[PE] – De um modo geral houve redução no número de turistas?

Hélio Dagnoni – O estrangeiro, até para nossa surpresa, manteve a média dos últimos dois anos, embora a crise econômica grave na Argentina. E o gasto médio de visitantes de outros países equivale a duas vezes o gasto médio do turista brasileiro. Isso é um valor expressivo para o setor no Litoral. E a temporada de 2019 foi se estendendo, por conta do Carnaval ter sido em março, os visitantes vieram de forma mais distribuída ao longo dos meses de verão.

 

[PE] – Em contrapartida à crise da Argentina, Uruguai e Paraguai vão bem. Houve evolução a partir destas origens?

Hélio Dagnoni – Teve, sim. Foi um número maior e eu incluo aí os chilenos. O Chile está mandando muita juventude para Santa Catarina, em viagens escolares. E muitos depois voltam com as famílias. É um movimento novo para o nosso verão, já que lá é muito frio.

 

[PE] – Qual é o perfil do turista que circula pelo litoral de SC?

Hélio Dagnoni – Exigente, como todo turista. E aí nosso ponto mais frágil é a malha viária, são os acessos às cidades litorâneas. É congestionamento em cima de congestionamento. Trechos curtos exigem horas de viagem por conta disso. E o nosso visitante vem, em sua maioria, de carro próprio. Ou aluga aqui. É uma consequência também da falta de opções de modais. Não temos ferrovias, voos regionais, embarcações que liguem cidades turísticas. Então, todo o movimento cai nas estradas e estas estão em péssimas condições, tanto as federais quanto as estaduais. E olha que Santa Catarina é o estado com o maior número de portos e de aeroportos do Brasil. O que falta é preparar essas estruturas para o turismo e conectar umas às outras.

 

[PE] – No final das contas, temos tudo e não temos nada.

Hélio Dagnoni – Exatamente. A malha viária está deteriorada ou subdimensionada, os aeroportos não têm estrutura e os portos não são explorados como poderiam e deveriam. Nosso potencial turístico é fantástico. Temos tudo para servir à francesa, mas só oferecemos arroz com feijão.

 

[PE] – Mesmo diante dessa situação, como fazer com que o Turismo seja menos sazonal e também menos concentrado no Litoral?

Hélio Dagnoni – Essa sua pergunta é a minha paixão. Começamos a tratar, em 2018, as 12 instâncias turísticas de Santa Catarina. E nós, da Fecomércio, estamos empenhados em desazonalizar em deslitoralizar o setor. Por isso mesmo fomos o primeiro estado do Brasil a fazer a integração das 12 instâncias, já com os devidos diagnósticos e prognósticos.

 

[PE] – O que mais falta?

Hélio Dagnoni – Profissionalismo. Bom atendimento. Cativar o turista. Sinalização turística. São carências graves nossas que aparecem também no Observatório Catarinense de Turismo, que implantamos recentemente. Precisamos vender um conceito, uma experiência, e isso passa pelos pilares que citei e que nos faltam. Nossas estâncias de águas termais são muito superiores a de estados vizinhos, mas chegar lá é um problema. Mas a Fecomércio vai atuar firmemente para corrigir todos os problemas. Existe um setor ativo, que quer fazer acontecer. E nós também. Vamos pressionar empresários, municípios, Estado e governo federal, porque todos saem ganhando com um Turismo mais forte. Hoje, o setor já responde por 13% do PIB e podemos chegar facilmente aos 20%. São mais empregos, mais tributos, mais dinheiro circulando. Mas quem lida direto com o visitante estrangeiro, por exemplo, sequer sabe falar uma segunda língua. Isso tem que mudar. E rápido! Isso sem falar nas picuinhas entre municípios.

 

[PE] – Como assim?

Hélio Dagnoni – Municípios vizinhos, que poderiam trabalhar de forma integrada para explorar um determinado potencial, não o fazem porque o prefeito de um é do partido A e do outro é do partido B. Temos que mudar essa mentalidade.

 

 Por Andréa Leonora

redacao@peloestado.com.br

#entrevista, #Fecomércio, #Hélio Dagnoni, home_destaque