Muito além das medalhas: o papel do esporte na formação social dos alunos
Artur Branco
O esporte pode representar muito mais do que uma atividade física ou a busca por resultados em competições. Para Nicolas Fonseca, estudante do Colégio Marista e atleta da seleção brasileira de natação paralímpica, a natação se tornou parte de uma trajetória marcada por desafios, conquistas e novas relações sociais. Por meio do esporte, ele encontrou oportunidades que ultrapassaram os limites das piscinas e contribuíram para sua participação no esporte paralímpico. Sua história ajuda a mostrar como a prática esportiva pode influenciar a vida das pessoas e ampliar as possibilidades de inclusão.
“A iniciação ocorreu por conta de uma recomendação do meu médico, que, por conta da amputação, acabei desenvolvendo escoliose, mas olhar para trás e ver tudo que aconteceu em minha vida por conta da natação é muito massa. Hoje eu não me vejo sem a natação, é algo que faz parte de mim, sabe? Algo que mudou totalmente minha vida”, afirma Nicolas.
A trajetória de Nicolas levanta uma discussão sobre o papel do esporte na formação de crianças e adolescentes. Nas escolas, projetos esportivos oferecem aos estudantes a oportunidade de participar de atividades coletivas e de vivenciar experiências que vão além do conteúdo trabalhado em sala de aula. Para compreender como essas iniciativas contribuem para o desenvolvimento dos alunos, é necessário observar tanto a estrutura dos projetos quanto as experiências de quem participa deles.
Em Criciúma, iniciativas voltadas ao esporte escolar procuram ampliar o acesso dos estudantes a essas experiências. Um exemplo é o programa Esportes na Escola, desenvolvido pela administração municipal, que oferece atividades no contraturno escolar. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura, a iniciativa atende mais de 3.200 estudantes em 34 escolas do município.
“Em Criciúma, o projeto Esportes na Escola já atende mais de 3.200 estudantes com atividade no contraturno. O mais importante ainda é que o esporte ensina disciplina, respeito, convivência e trabalho em equipe. É uma extensão daquilo que a gente quer construir dentro da sala de aula para a vida do estudante como cidadão”, afirma o prefeito de Criciúma, Vagner Espíndola.
Além dos aspectos relacionados à convivência e à formação cidadã, a prática esportiva também pode ser analisada sob a perspectiva do funcionamento do cérebro. O neuropsicólogo Geison Marques explica que a atividade física envolve neurotransmissores associados a processos como atenção e raciocínio.
“O esporte, além de toda uma gama social, faz com que vários neurotransmissores acabem trabalhando, liberando noradrenalina, dopamina, entre outros hormônios. Então, faz com que teu raciocínio seja mais rápido, que você se concentre melhor e que, por consequência, melhore seu desenvolvimento tanto acadêmico quanto social”, explica Geison Marques, neuropsicólogo.
A relação entre o esporte e a formação dos estudantes envolve, portanto, tanto as experiências de convivência quanto os aspectos do desenvolvimento individual. Nas escolas, as atividades esportivas oferecem oportunidades para que os alunos participem de práticas coletivas, construam vínculos e desenvolvam habilidades que podem ser importantes dentro e fora da sala de aula.
A presença do esporte na rotina escolar também pode aproximar estudantes de diferentes realidades. Ao participar de uma equipe, o aluno precisa compreender regras, respeitar colegas e adversários e colaborar para alcançar objetivos comuns. Essas experiências podem ser importantes para a convivência dentro da escola e para as relações estabelecidas fora dela.
Apesar dos benefícios, a participação esportiva também depende de condições que permitam aos estudantes praticar as modalidades. O acesso às atividades, a disponibilidade de espaços adequados e o acompanhamento de profissionais são fatores importantes para que os projetos alcancem seus objetivos. Nesse contexto, as iniciativas escolares podem funcionar como uma porta de entrada para o esporte, especialmente para crianças e adolescentes que não teriam as mesmas oportunidades fora da escola.
A trajetória de Nicolas ajuda a compreender essa dimensão. Para além dos resultados alcançados na natação, sua experiência permite discutir o papel do esporte na construção de relações, na inclusão e no desenvolvimento pessoal. Nas escolas, os efeitos dessa prática nem sempre aparecem em medalhas ou troféus. Muitas vezes, estão na confiança adquirida, nas amizades construídas e na capacidade de conviver e trabalhar em equipe.
Os laços construídos dentro e fora das piscinas
O impacto do esporte também pode ser percebido nas relações construídas ao longo da trajetória de quem pratica uma modalidade. No caso de Nicolas, a natação representa uma experiência que vai além dos treinamentos e das competições, envolvendo amizades, convivência e a participação em novos ambientes sociais. Segundo Nicolas, mesmo sendo bicampeão mundial em sua categoria, as amizades foram a maior conquista de sua vida.
A participação no esporte também envolve a família, que acompanha os desafios e as conquistas do atleta. A trajetória de Nicolas é marcada por experiências que exigem adaptação e apoio, aspectos que ajudam a compreender a importância da rede de pessoas presente ao longo desse processo.
Além das conquistas esportivas, as experiências vividas durante a prática podem contribuir para a autonomia e para a construção de vínculos. Para crianças e adolescentes, encontrar um espaço em que possam participar, desenvolver habilidades e conviver com outras pessoas pode representar uma oportunidade importante de crescimento.
“Muita alegria, porque aí a gente vê ele hoje vestindo a camisa da Seleção, representando o Brasil. A gente olha para trás, tudo que a gente passou, tudo que ele passou, e a gente não imaginava que ele iria chegar assim tão longe. Não por não ter condições, por não ter capacidade, mas, assim, porque era algo inimaginável para a gente”, diz Andressa Fonseca, mãe de Nicolas.
A história de Nicolas permite observar como o esporte pode ocupar diferentes lugares na vida de uma pessoa. Enquanto as competições representam uma dimensão de sua trajetória, as relações construídas durante esse percurso ajudam a mostrar que os resultados também podem ser percebidos fora das piscinas.