Ele é engenheiro, Mestre em Construções Civis, diretor de Operações da Daxo e está à frente de uma entidade criada em Joinville para valorizar a mão de obra do setor da construção civil. Hoje, em entrevista para este jornalista, nós trazemos mais informações sobre o projeto do Instituto Profissão Construir que, desde 2023, presidida por Carlos Lopes em parceria com o Sinduscon Joinville, já treinou e capacitou mais de 700 colaboradores em Santa Catarina. A iniciativa se expande também para a região de Criciúma. Acompanhe:
FELIPE GODOY - Na opinião do Instituto Profissão Construir, realmente a mão de obra é a principal dor dos empreendedores do setor da construção?
CARLOS LOPES - Com certeza, essa é a maior dor do setor da construção civil e a tendência é que ela se agrave nos próximos anos. Isso porque, ao longo do tempo, não desenvolvemos escolas de formação de mão de obra que realmente transformassem nossos profissionais em técnicos e valorizassem essa categoria. Hoje, essa é a principal dificuldade do setor, e é exatamente isso que o Instituto Profissão Construir busca reverter.
A meta é que tenhamos, no futuro, uma mão de obra mais qualificada e muito mais preparada.
FG - Em Criciúma, de que forma uma iniciação na construção já traz benefícios para quem atua no dia a dia do mercado?
CL - Para saber quem queremos ser precisamos começar do jeito certo. É por isso que o módulo de iniciação é a espinha dorsal do Instituto Profissão Construir. É nesse módulo que vamos, primeiro, apresentar a quem nunca trabalhou no setor o que nossa indústria pode oferecer, dando uma visão clara de onde a pessoa pode chegar. Ela precisa ter clareza de que está só começando e de que o trabalho como ajudante da construção civil é apenas o início. Assim como o auxiliar administrativo, o iniciante da construção civil assim começa dentro do setor. Inclusive, hoje este profissional já ganha mais do que o auxiliar administrativo.
É a partir desse módulo de iniciação que o aluno vai ter clareza do que pode ser: um ótimo pedreiro de alvenaria, um ótimo pedreiro de reboco, um carpinteiro, um armador, um eletricista... O céu é o limite. Ele pode ser engenheiro, arquiteto, até empresário e empreendedor. Então é preciso ter esse entendimento: o curso de iniciação é o primeiro passo para a profissionalização.
FG - Como você observa o futuro do mercado? A convergência entre tecnologia e humanização é uma realidade?
CL - Costumo dizer que os robôs não vão construir as obras sozinhos, eles vão demorar a chegar e, quando chegarem, vão precisar de gente para coordená-los. Inclusive, precisamos combater algumas inverdades e uma delas é que a construção civil não tem tecnologia. A construção civil tem, sim, tecnologia. E ela está cada vez mais evoluída. O que falta é o entendimento de que o ser humano sempre será necessário e precisa estar preparado.
Nós falhamos, ao longo de décadas, em não profissionalizar as pessoas. Nos Estados Unidos e na Europa, um profissional técnico é mais reconhecido do que um engenheiro ou um arquiteto, porque faltam estes profissionais com conhecimentos práticos. Aqui no Brasil está acontecendo exatamente o mesmo movimento, por isso, precisamos formar rapidamente mais técnicos e especialistas.
A tecnologia está presente, mas precisamos continuar formando profissionais porque, no dia em que o robô chegar, é preciso ter gente preparada para lidar com isso.
Não há dúvidas de que a educação e a profissionalização precisam estar alinhadas ao que há de melhor e mais inovador no setor. O concreto armado, por exemplo, faz parte da nossa natureza. Temos obras no mundo inteiro em concreto armado e ele vai continuar existindo por muitos e muitos anos. Mas se amanhã quisermos deixar de usar tijolo para adotar o steel frame, precisamos de pessoas preparadas para isso.
Acredito firmemente que podemos ter melhores ferramentas e melhores equipamentos para executar o que fazemos hoje. Mas, para usarmos novas tecnologias, precisamos mostrar aos profissionais do setor o que elas podem proporcionar. Quando a mão de obra tem conhecimento claro de quais ferramentas pode usar ela consegue construir uma remuneração melhor, produzir mais e, consequentemente, ter um ganho maior.
Acho isso importante: a tecnologia serve exatamente para isso. Antigamente, um pintor, para pintar um teto ou uma parede, tinha que montar um andaime para alcançar os ambientes mais altos. Hoje já existem os pés mecânicos e as pistolas de pintura, recursos que não existiam antigamente. Ou seja, já temos formas de produzir mais. A tecnologia vem para agregar valor e seu uso precisa ser ensinado. O mais importante é não esquecermos que vamos continuar precisando de seres humanos e que eles precisam ter clareza sobre o que vão aprender e o que vão executar na vida.
FG - Como empreendedores do Sul de SC podem aderir ao projeto do Instituto?
CL - O Profissão Construir nasceu em Joinville, por meio do SINDUSCON. Rapidamente, pelo valor que agrega ao setor, entendemos que ele deveria ser transformado em um instituto com CNPJ próprio, totalmente focado na formação de mão de obra porque a demanda aumentou muito. Em pouco mais de dois anos e meio, formamos mais de mil pessoas. Isso é bem impactante e acreditamos que o crescimento será exponencial a partir de agora.
Sobre como as outras cidades podem aderir, é simples. Em nosso planejamento estratégico, decidimos que Joinville ficaria sólida primeiro, para depois ampliarmos o trabalho para o estado de Santa Catarina. Neste momento, a preferência é que o instituto abrace as cidades por meio dos SINDUSCONs locais. Acho que isso faz toda a diferença, porque o envolvimento do sindicato patronal na formação de mão de obra é fundamental. Ninguém conhece melhor as nossas dores do que o empreendedor.
Então, o caminho é avançarmos por meio dos SINDUSCONs ou de entidades que representem o setor da construção civil. Havendo essa vontade, iniciamos sempre com, no mínimo, três turmas do módulo de iniciação da construção civil, para que, depois, trabalhando em sintonia e com a mesma qualidade que conseguimos implantar em Joinville, possamos avançar com os módulos profissionalizantes.
Os SINDUSCONs das cidades que tiverem interesse podem procurar o Instituto Profissão Construir e, juntos, vamos construir esse caminho. Hoje, o instituto tem recursos por meio de fornecedores e de empresas privadas, pode recorrer a recursos públicos e pode também contar com doadores, sempre com o objetivo principal de priorizar a formação de mão de obra.
Por fim, precisamos salientar que a construção civil é para todos. Durante muito tempo, o próprio setor errou ao atrair apenas pessoas carentes para trabalhar nas obras. A verdade é que precisamos acolher a todos porque não há um caminho pré-definido: "esta pessoa não tem formação, vai trabalhar na construção civil; esta pessoa vive no centro da cidade, estudou em boa escola, vai para a informática".
Eu acho que não é assim que devemos guiar o mundo. Quem tem que escolher a profissão é o aluno. E, para que ele tenha clareza das profissões que existem, precisamos falar com ele. Essa também é uma das metas do Instituto Profissão Construir: falar cada vez mais com os adolescentes e com os jovens para que eles entendam que, na construção civil, existem profissões maravilhosas e que a escolha do profissional que eles querem ser é só deles.