Vinícola de São Joaquim envelhece vinho no fundo do mar e é pioneira na prática no Brasil

Fama tem três rótulos que ficam submersos por até 24 meses; garrafas saem com cracas e conchas naturais e embalagem feita com madeira da Ponte Hercílio Luz

Por
5 Min

No mundo do vinho, o envelhecimento em barrica de carvalho já é tradição. Em garrafa, também. Mas no fundo do mar? É isso que a Vinícola Fama de São Joaquim faz, e de forma pioneira no mercado comercial brasileiro.

 

A enóloga Thaís Ribeiro, responsável pelo receptivo e pela produção da vinícola, explica o processo com entusiasmo: garrafas são colocadas dentro de gaiolas e levadas ao fundo do mar catarinense, onde permanecem por 12 ou 24 meses em temperatura constante de aproximadamente 5 graus, baixa luminosidade, baixa concentração de oxigênio e pressão diferente da superfície.

 

"O principal intuito é deixar esse vinho no fundo do mar com essa temperatura constante, com baixa luminosidade, baixa concentração de oxigênio e uma pressão diferente, para que esse vinho esteja pronto mais cedo", explica.

 

Quando as garrafas são retiradas do mar, chegam cobertas por cracas, conchas e pequenos corais, formações naturais que tornam cada unidade única. "A gente não consegue repetir, porque depende da posição que ela ficou dentro da gaiola. Cada garrafa é diferente", conta Thaís. A embalagem que acompanha o produto tem um significado especial: é feita com madeira da Ponte Hercílio Luz, cartão-postal de Santa Catarina.

 

São três rótulos produzidos nessa linha: um Sauvignon Blanc branco, um espumante rosé e um tinto, este último submerso por 24 meses. A produção é pequena, com cerca de 300 unidades por safra, o que confere ao produto um caráter verdadeiramente exclusivo.

 

Uma vinícola jovem com história antiga

 

A Fama é uma das mais recentes vinícolas da Serra Catarinense, mas o vinhedo que abastece sua produção tem raízes que remontam a 2003, quando foram plantadas as primeiras mudas de Cabernet Sauvignon e Merlot. Os atuais proprietários, Fabiano e Maristane, cujas iniciais inspiram o nome Fama, adquiriram a propriedade em 2021 e iniciaram o projeto com vinhas já em plena produção.

 

Desde então, a vinícola ampliou as variedades cultivadas por meio de reenxertias, processo em que se mantém a raiz da videira original e troca-se apenas a copa, permitindo produção mais rápida do que o plantio de mudas novas. Hoje são sete variedades em produção, com outras em fase de teste, incluindo Cabernet Franc, Petit Verdot, Sauvignon Blanc, Sagrantino di Montefalco, Alicante Bouschet e Ribolla Gialla, entre outras.

 

Apesar de jovem, a Fama já acumula premiações relevantes. Em pouco mais de três safras no mercado, conquistou medalhas de ouro na Grande Prova dos Vinhos do Brasil, com destaque para o Cabernet Franc e o espumante Naturi, e também em concurso da revista Dega, com o blend de quatro variedades e os espumantes champenoise sur lie. "Trazer essas premiações para os rótulos em tão pouco tempo é um sentimento de que estamos no caminho certo. Não gostamos dos vinhos só porque são nossos, eles realmente têm qualidade", afirma Thaís.

 

Sur lie: o espumante com nuvem dentro da garrafa

 

Um dos produtos mais curiosos da Fama é o espumante sur lie, estilo em que o vinho permanece em contato com as leveduras após a fermentação, sem ser filtrado. Ao segurar a garrafa contra a luz e movimentá-la, é possível ver uma nuvem se formando no interior. "Essa nuvem é a levedura que não está em atividade, mas está rompendo a parede celular e trazendo para o vinho polissacarídeos e outros compostos que, quando a gente põe em boca, dão aquela sensação de volume, cremosidade e textura. É completamente diferente do espumante filtrado", explica.

 

O vinho é vivo

 

Para Thaís, uma das ideias mais equivocadas que o consumidor tem é a de que um bom vinho precisa ser sempre igual. "Tem pessoas que chegam e falam: 'meu vinho favorito é porque cada safra ele é o mesmo'. Não tem como. Cada safra é completamente única. O clima é diferente, por mais que a gente siga a mesma receita", diz.

 

A enóloga reforça que o vinho nunca para de evoluir, nem depois de engarrafado. "Você pode tomar a mesma garrafa, a mesma safra, o mesmo lote, em momentos diferentes, e é completamente diferente. O vinho é como ler um livro: se você ler hoje, daqui a um mês, daqui a dez anos, é completamente diferente. Porque ele está vivo", compara.

 

Atualmente, a Fama tem 13 rótulos no mercado, divididos entre a linha tradicional, vinhos tranquilos, espumantes e rosé, e a linha Fundo do Mar. A produção total, somando três safras disponíveis, não passa de 5 mil garrafas, consolidando a vinícola como um projeto de alta qualidade e baixo volume, exatamente como os melhores vinhos de altitude da Serra Catarinense.

Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.

 


Notícias Relacionadas »