Trocar o estresse da cidade pelo chimarrão à beira do fogão, colher ovos no galinheiro, provar um vinho artesanal ou simplesmente contemplar a paisagem da serra de manhã cedo. Essa é a proposta do projeto Acolhida na Colônia, que na região da Serra do Rio do Rastro, em Lauro Müller, reúne nove famílias de agricultores dispostas a compartilhar seu modo de vida com visitantes de todo o Brasil.
O projeto nasceu na França e chegou ao Brasil tendo Santa Rosa de Lima como berço catarinense. Hoje está presente em mais de 30 países e em diversas regiões brasileiras. Na Serra do Rio do Rastro, é coordenado pela agricultora Susi Viero, que explica o que torna a iniciativa diferente do turismo convencional.
"O turista tem essa troca de saberes e de sabores e vivencia todo esse cotidiano da vida rural. Isso é tão bom porque é uma troca de experiência entre o visitante e a família local que vive no sítio", afirma.
A produção das famílias é variada: vinho artesanal, suco de uva, morango orgânico, mel, açúcar mascavo, doces, compotas, biscoitos e criação de animais, incluindo ovelhas. Algumas propriedades oferecem hospedagem, seja em cabanas construídas especialmente para isso ou em quartos dentro da própria casa da família, além de café colonial, almoço e área de camping com trilhas.
Susi destaca que o turismo não pode sobrepor a atividade agrícola, pois ele existe como complementação de renda.
"As famílias acabam produzindo um pouco mais para entregar para o turista do que aquilo que faria parte do dia a dia. É biscoito, é compotas, é doces", conta. Os produtos também chegam à Feira da Agricultura Familiar, realizada toda sexta-feira em Lauro Müller, e a eventos e exposições dentro e fora do município. Alguns, como o mel, já atravessam as fronteiras regionais.
Para participar do projeto, não basta ser agricultor familiar. É preciso ter um perfil específico.
"Ele tem que gostar de fazer essa troca de experiência, de receber as pessoas, de acolher. Sentar-se ao redor do fogão, tomar um chimarrão, degustar um vinho, um queijo, compartilhar aquilo com pessoas, contar a história da família, o que ele produz. As pessoas vivenciarem o tirar o leite, as crianças terem acesso ao galinheiro, poder colher o ovo. Esse jeito simples de viver o dia a dia, sem nada de artificial, passar isso de uma maneira bem natural", descreve Susi.
A coordenadora reconhece que a barreira cultural ainda é um desafio para ampliar o número de famílias participantes.
"O novo sempre assusta um pouco. Tudo aquilo que é novo parece que está mudando aquele saber fazer muito antigo. Mas a gente já vê bons resultados, bons frutos nessa mudança. Ela é lenta, mas ela vem acontecendo", avalia. Hoje, o município tem potencial para centenas de famílias participantes, considerando a extensão da agricultura familiar em Lauro Müller, mas nem todas têm o perfil de acolhimento que o projeto exige.
As famílias contam com apoio técnico da Epagri e do Senar para capacitação e qualificação, com cursos gratuitos e periódicos que abordam desde técnicas de conservação de alimentos até hospitalidade. "A gente aprende a conservar de maneira mais natural possível os produtos para que o turista possa estar levando para a cidade de origem dele", explica Susi.
O projeto também recebe grupos acadêmicos, que vêm à região para pesquisas geológicas relacionadas à Coluna White, formação rochosa única no Brasil, parte de um conjunto geológico cuja outra metade está na África. Durante a estada, os pesquisadores se hospedam nas propriedades rurais e convivem com as famílias.
"Eles se hospedam nas famílias, nas casas. Eles vão se alimentar da maneira que a família se alimenta. O café da manhã é o café da família. Então eles conseguem ter esse respiro, esse diferencial", conta.
O artesanato também faz parte da cultura local. Pintura em tecido, crochê e bordado são as principais manifestações, passadas de geração em geração ou ensinadas nos clubes de mães que existem nas comunidades. "Aqui se trabalha muito a questão da pintura em tecido, o crochê e o bordado", destaca Susi.
Assista à entrevista completa:
https://youtu.be/7tbrA2b7Vd0
Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.