Você ficou bom demais no que não deveria estar fazendo

Existe um conforto quase hipnótico em chegar no trabalho e saber exatamente o que te espera. Abrir aquela planilha que só você entende, clicar nos mesmos botões, conferir os mesmos relatórios manuais. Isso te dá uma sensação de controle, de segurança. Afinal, depois de tanto tempo, ninguém faz isso melhor do que você. Você se […]

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Existe um conforto quase hipnótico em chegar no trabalho e saber exatamente o que te espera. Abrir aquela planilha que só você entende, clicar nos mesmos botões, conferir os mesmos relatórios manuais. Isso te dá uma sensação de controle, de segurança. Afinal, depois de tanto tempo, ninguém faz isso melhor do que você. Você se tornou a autoridade máxima naquele processo específico, por mais tortuoso e ineficiente que ele seja.

O que a gente raramente admite é que essa resistência ao novo não é falta de capacidade técnica, é apego. É o ego gritando baixinho que, se você adotar um sistema novo ou uma Inteligência Artificial para fazer aquilo, você perde a sua utilidade. A gente se vicia em ser necessário pelo esforço, não pelo resultado. É mais fácil lutar contra uma mudança necessária do que encarar o vazio de descobrir o que sobra da nossa função quando o operacional é eliminado. Você prefere ser o “herói do Excel” do que o estrategista que você deveria ser, simplesmente porque o Excel você já domina, e o desconhecido dá medo.

A segurança ilusória de um processo viciado

O nosso cérebro é preguiçoso por natureza. Ele ama um padrão, um caminho já trilhado, porque isso economiza energia. Só que essa economia de energia pode estar custando caro para a sua carreira e para o seu negócio. Quando você passa anos fazendo a mesma tarefa do mesmo jeito, você cria um calo mental. Você não precisa mais pensar para executar. 

E é aí que mora o perigo: você se sente eficiente porque faz rápido, mas não percebe que está fazendo algo que nem deveria estar sendo feito por um ser humano.

O especialista em tarefas que já deveriam estar mortas

Pense bem: quanto do seu tempo hoje é gasto em tarefas que uma máquina faria em segundos? Se você lidera ou trabalha em grandes empresas, sabe do que eu estou falando. É o fechamento que demora dez dias, a conciliação que nunca bate, o vai e vem de e-mails para aprovar algo simples. Você faz isso há tanto tempo que já nem questiona mais. Virou parte da paisagem. Você ficou tão bom nisso que consegue fazer enquanto pensa no almoço.

Mas ser um especialista em algo obsoleto é o caminho mais rápido para a irrelevância. Não importa o quão rápido você digita dados se esses dados já deveriam estar integrados automaticamente. O mercado não premia mais quem “trabalha muito”, ele premia quem gera valor. E valor não vem de repetir processos que foram desenhados na década passada. Se a sua maior entrega do dia é uma planilha impecável que tomou seis horas da sua agenda, você não está sendo produtivo, você está apenas sendo um robô caro.

Gente tem que fazer serviço de gente

Eu sempre digo isso e vou repetir até cansar: gente tem que fazer serviço de gente. Isso significa análise, estratégia, negociação e criatividade. Se o que você faz pode ser descrito como um passo a passo lógico e repetitivo, você está ocupando o lugar de uma máquina. E o pior: está deixando a sua mente atrofiar por falta de desafios reais.

Quando a gente automatiza o que é operacional, a primeira sensação não é de alívio, é de desconforto. De repente, sobra tempo. E o tempo é um recurso assustador para quem não sabe o que fazer com ele além de operar. Mas é nesse espaço que a mágica acontece. É quando você para de preencher o relatório e começa a ler o que ele está dizendo. É quando você para de cobrar o cliente e começa a entender por que ele não está pagando. A tecnologia não existe para substituir o profissional, mas para devolver a ele a dignidade de usar o cérebro para algo que realmente mova o ponteiro da empresa.

O custo invisível de não querer aprender o novo

Mudar dói, dá trabalho e mexe com as nossas certezas. Aprender um sistema novo ou mudar um fluxo de trabalho exige uma humildade que nem todo mundo tem em estoque. É preciso admitir que o jeito que você fez nos últimos dez anos talvez não fosse o melhor, era apenas o mais conhecido. A desculpa do “é mais rápido fazer do meu jeito” é a maior mentira que a gente conta para nós mesmos para não ter que enfrentar a curva de aprendizado do novo.

Sim, nos primeiros dias o sistema novo vai parecer mais lento. Sim, você vai se sentir um pouco perdido. Mas o custo de não passar por esse desconforto é a estagnação. O mundo de 2026 não tem paciência para quem se orgulha de ser resistente. Aquela pessoa que diz com orgulho que “prefere o papel” ou que “não confia em tecnologia” está apenas anunciando a data da sua própria aposentadoria forçada. O novo só é assustador enquanto você não se permite ser um iniciante nele.

O que você vai escolher repetir a partir de hoje?

Se somos o resultado do que repetimos, a pergunta que fica para este início de ano é: o que você quer ser no final de 2026? Se você continuar repetindo a resistência, o apego ao manual e o medo da tecnologia, eu já sei onde você vai estar daqui a doze meses: no mesmo lugar, só que mais cansado e com menos espaço no mercado.

A inovação não é um evento, é um hábito. É a decisão diária de questionar o óbvio e de ter a coragem de delegar para a máquina tudo aquilo que não exige a sua humanidade. Comece pequeno. Questione um processo hoje. Teste uma ferramenta nova amanhã. Mas, por favor, pare de se orgulhar de ser bom naquilo que está te impedindo de crescer. Se você sente que está pronto para essa virada, mas não sabe por onde começar a limpar o terreno operacional na sua empresa, eu estou aqui para te ajudar a enxergar esse novo caminho. A vida é curta demais para ser gasta em cliques desnecessários.

Saionara Ugioni

Administradora com mais de 15 anos de atuação em tecnologia, liderando projetos voltados à inovação e à transformação de negócios. É CEO da InnCash, empresa que apoia grandes corporações na modernização do setor financeiro. Também atua como Diretora do Polo Regional da ACATE – Cetus e da ACIC, contribuindo ativamente para o fortalecimento do ecossistema de empreendedorismo e inovação no Sul de Santa Catarina.

 

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