Anora, que concorre ao Oscar de Melhor Filme neste ano, pisa ainda mais no acelerador dos filmes de comédia erótica ao estabelecer três sentimentos e emoções bem específicas: solidão, rejeição e possessividade. Conta mais de algo, do que alguém, e como isso afeta o ser humano, que pode se “tocar” ao assistir a obra.
Obras assim são de suma importância. Não pelo fato das péssimas características dos personagens, mas pela mensagem que quer passar ao espectador. Uma narrativa densa, com uma sequência de ações impensáveis e infundadas dos personagens, faz o longa-metragem cair na “boca do povo”. Anora tem sido assim, e mesmo que questionável em certas passagens da história, é um bom projeto e que mereceu estar disputando o Oscar.
A história do filme conta sobre uma jovem garota de programa chamada Ani/Anora (Mikey Madison), que acaba saindo com um jovem russo e que mora nos Estados Unidos, Ivan (Mark Eydelshteyn). A história dos dois se entrelaça em um clube, e em pouco tempos, ambos se apaixonam perdidamente, brigando de cão e gato na cama e na própria vida de jovens adultos conturbados.
Sean Baker traz uma história um tanto real e escapista. Real pelo fato de que isso, possivelmente, acontece ou já aconteceu. Homem sai com garota de programa, eles se apaixonam e vivem uma vida de luxo e esbanjam riqueza. Agora, o termo escapista é o que define o projeto: o prazer sexual. A aura de poder fazer uma conjunção carnal a todo momento, colocando o florescer de dois jovens que precisam extravasar. Desde a bebida ao namoro, tudo se torna risível aos olhos de Ivan, que a partir de certo momento, vê que sua vida é apenas para ser playboy ricaço.
O que mais chama a atenção de todo o projeto é a estética sexual. De como isso acaba moldando o filme do começo ao fim, e o sentimento de solidão que o trabalho de uma profissional como essa acaba tendo. Sim, solidão. Uma solidão que, junto de outro personagem, chega a ser possessão. O homem tinha possessão na mulher e o prazer de querer poder extravasar todo dia. Já Ani tinha a possessão da riqueza, de poder dominar um jovem que se perde em falácias. Baker, diretor deste longa, acerta precisamente em mostrar uma narrativa cômica, mas que no fundo, possui uma mensagem forte e importante sobre pertencimento.
Com uma boa história, de um roteiro bem estruturado e montagem, também, a atuação de Madison é a melhor do elenco. Conhecida por Pânico 6, a atriz demonstra sabedoria em trabalhar com um projeto mais intimista. Percebe-se que ela, realmente, estudou profundamente sua personagem para entender suas nuances, e não ficar apenas em um sentido mais raso, como é o caso de Eydelshteyn. O ator peca em trabalhar com Ivan, e acaba perdendo destaque quando Yura Borisov no papel de Igor ascende e consegue ter o carisma em poucas falas, mas muitas ações. Em sua totalidade, Anora tem um bom elenco, despertando a voracidade de atores em projetos de menos alcance em tornar-se mais conhecidos.
A fotografia é um outro ponto muito positivo no longa, que coloca cores neon em uma boa parte do seu primeiro ato. No entanto, o que acaba, em partes, tornando a produção cansativa é sua comédia birrenta em excesso e a condução para o final e conclusão da trama. São pontos negativos, mas que não comprometem uma boa obra como Anora, que depois de anos, faz do gênero da comédia erótica uma vitrine que agora está no Oscar.
Anora é um filme intimista, com apelo cômico e sexual, com Sean Baker demonstrando capacidade em fazer um excelente longa-metragem que coloca uma principal mensagem: o sentimento de pertencimento.
Nota: 8
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