A fragmentação de tarefas está ficando cada vez mais comum na rotina do trabalhador brasileiro e do mundo. As funções vão se somando no ambiente de trabalho, não apenas para aqueles que tem um emprego fixo, mas também para aqueles que buscam empreender e criar uma empresa. Nisso, acabamos tendo habilidades básicas em muitas áreas, mas temos pouco ou quase nenhum aprofundamento nelas.
Junto com a onda empreendedora no Brasil, emergem desafios para os quais os coaches digitais não apontam soluções – talvez, nem configurem os desafios como problemas. É fato que o lema “faça você mesmo” não se aplica a tudo, e espero não precisar provar para meu leitor que o horário em que você acorda não definirá o seu “sucesso”.
O processo de início de um negócio acaba sendo muito complexo e se o empreendedor não tem reservas para o empreendimento, tudo piora. No caso dos pequenos negócios digitais há um acúmulo de funções para além do ofício que o prestador deseja iniciar. Neste caso, falo de: edição e criação de vídeos, tráfego pago, design, gestão de perfis, gestão de pessoas, campanhas, network e muito mais. As demandas não param e o pequeno empreendedor acaba atolado de funções as quais ele não domina. E, claro, além do tempo empregado para essas tarefas, precisa dedicar uma parcela da sua rotina para aperfeiçoá-las.
Bom, acredito que eu seria um charlatão – como os que acuso- se não apontasse um caminho possível (e não uma solução, pois não sou coach) para você: dívida seu trabalho sempre que puder, os marketeiros estão em todos os lugares, se possível, faça acordos, contrate, peça dicas, pare de perder tempo vendo vídeos na internet. Se você tem a sua profissão e se o tempo te permitir, se aperfeiçoe nela para fidelizar uma clientela bacana. Aquele seu “concorrente”, acredite, ele não é seu inimigo, busque se distanciar deste discurso de que a concorrência é sua inimiga. Quando for oportuno, chame ele para trabalhar, conversa e dívida trabalho, não seja ganancioso, pois pode ser que você precise de auxílio quando estiver adoecido, seja de um resfriado comum ou algo mais grave. Como é de costume, você não poderá perder os poucos clientes que tem, então essa parceria pode ser de grande ajuda. Quantas pessoas que me pediram dicas e, hoje, fixo parcerias e todos saímos ganhando, contentes por estarmos realizando nossos ofícios.
Sempre fui um autodidata, com facilidade para ser básico em tudo, porém, cada vez mais se faz necessário se aprofundar no conhecimento, a internet já está farta de pensamento básico, pouco crítico, me parece que estamos concorrendo o tempo todo, tentando superar os outros em quantidade, mas esquecemos a qualidade. Reflito que valorizamos mais aqueles que são básicos em muitas tarefas do que aqueles que se dedicam a ser bons o suficiente em poucas. São eles, também, vítimas de um algoritmo que necessita ser alimentado constantemente, e ele é um dos culpados por sermos tão básicos, pois é praticamente é impossível fazer conteúdo de qualidade, em massa, em tão pouco tempo e com tanto volume.
A ansiedade nos assola quando temos uma pluralidade de funções que precisamos exercer, e no ambiente de trabalho fixo não é diferente. Para enxugar gastos, o médio empresário, assim como o pequeno, busca economizar fragmentando seu funcionário, fazendo-o exercer diversas funções ao invés de presar pela qualidade e como dissemos antes, desenvolver o oficio do indivíduo. Assim, é fácil transformá-lo em um super-quebra-galhos-corporativo e invés de investir e elevar a empresa, mantêm os funcionados na linha do básico, atolando-os de tarefas e os impedindo de se desenvolver.
Isto não é falta de educação financeira nas escolas, não é falta de aulas empreendedorismo e sim é a disseminação de uma cultura do básico e do acúmulo e da fragmentação de funções que está se instalando -se já não se instalou- em nosso país. É necessário um planejamento de longo prazo, investimentos na ciência e na educação, pois nossos grandes cientistas brasileiros são mais valorizados em outros países do que aqui, o que reflete o que estou falando aqui desde o início: o que vai além do básico não é valorizado, o que demanda senso crítico e tempo não é valorizado. Mas até mesmo a crítica, quando carregada de superficialidade, é vazia, é simples, é rasa, beirando à mediocridade.
O raso é uma posição confortável: é o obvio que, muitas as vezes, é travestido de genialidade para desavisados e vendido em livros e cursos, ou simplesmente usado para ganhar engajamento. É um desafio sair do senso comum depois de ser atolado por funções, seja na empresa ou em atividades domésticas. Todos precisamos da possibilidade de sair do básico, entendo que muitos não o fazem por falta de possibilidades e não cairei na falácia da meritocracia aqui. Mas, almejar o crescimento pessoal e coletivo é necessário para nos desenvolvermos como sociedade.
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