Entrevista com Mario Cezar de Aguiar, presidente da Fiesc

O presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Mario Cezar de Aguiar, é antes de tudo um entusiasta. Especialmente em relação ao próprio estado, que destaca como diferente do restante do país.

Ao final dessa entrevista exclusiva concedida aos veículos impressos e digitais da rede formada pela ADI-SC e pela Adjori-SC, que abrange mais de 80% dos municípios catarinenses, Aguiar teve a palavra livre para manifestar algo que não tivesse sido perguntado. E não perder tempo em reforçar: “O industrial catarinense, está confiante e tem intenção de investir. Isso é medido. Não é uma percepção sem critérios. O nosso estado tem dado respostas positivas para o país, mas precisamos unir as forças para fazer com o governo federal lance um olhar mais apurado para nossas demandas sob forma de investimento”.

O líder industrial é uma das vozes mais ativas em prol de um novo pacto federativo, que distribua com mais justiça os recursos que os estados enviam para a União. Para se ter uma ideia, em 2018 Santa Catarina recebeu de volta, por meio do Fundo de Participação dos Estados, somente 1,2% do total que mandou para Brasília na forma de tributos.

 

Sempre digo que não é só uma questão de justiça, mas de inteligência investir em Santa Catarina.

 

[PeloEstado] – Como o setor industrial avalia o primeiro semestre de 2019?

Mario Cezar de Aguiar – Vou começar falando sobre o Brasil. Havia uma grande expectativa com a eleição do novo governo. Estava extremamente elevada desde que nós medimos o índice de confiança do empresariado e foi, se não a mais alta, uma das mais altas. Mas, em função da ausência de uma solução efetiva das reformas, que se imaginava que seriam logo implementadas, a confiança foi diminuindo. O setor produtivo como um todo esperava que a reforma da Previdência passasse rapidamente e até hoje não foi aprovada. A reforma tributária também frustrou a expectativa.

 

Ainda assim, o índice de confiança é positivo, acima dos 50 pontos. Mas a redução fez com que os investimentos diminuíssem.

 

[PE] – Além das reformas, que outros indicativos levaram ao recuo nos planos de investimentos?

Aguiar – Havia uma previsão de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, mas o mercado já rebaixou a projeção por 17 vezes e hoje está em 0,87%. O governo também já reduziu a expectativa de crescimento por três vezes. (Obs.: na sexta-feira, 27, o Banco Central do Brasil emitiu comunicado baixando para 0,8% a projeção do PIB para 2019. Especificamente no caso da indústria, a estimativa foi de estimativa passou de 1,8% para 0,2%)

 

[PE] – A situação é a mesma em Santa Catarina quanto à confiança do industrial?

Aguiar – Não. Ao contrário do Brasil, Santa Catarina teve indicadores bem mais positivos no primeiro semestre. Somos o segundo estado com maior contratação de pessoas para a indústria, o de menor taxa de desemprego e a nossa economia tem aumentado bem acima da média nacional. O índice de atividade econômica de Santa Catarina até abril estava em 2% e do Brasil estava, na média, em 0,06%. Nossas exportações aumentaram 12,2% de janeiro a maio, contra um decréscimo de 0,9% do país. No caso das importações, em Santa Catarina houve incremento de 12% contra 1,8% da média nacional.

 

Todos os nossos índices estão acima ou bem acima da média nacional. Isso nos possibilita dizer que, em relação ao Brasil, a economia catarinense vai muito bem.

 

[PE] – O que explica tanta diferença?

Aguiar – São vários fatores. Temos uma indústria mais diversificada, uma economia mais bem distribuída e somos um estado empreendedor. Santa Catarina acaba se destacando no cenário nacional.

 

[PE] – O governo federal suprimiu o Ministério da Indústria, agora parte do Ministério da Economia. A indústria teve prejuízo com a mudança?

Aguiar – Haver ou não haver um ministério específico para o setor industrial é mero detalhe. O que tem que haver é uma política federal que incentive a indústria. O setor sempre teve uma participação importante na produção de riquezas, na geração de emprego, na arrecadação de tributos. É fato medido que onde tem indústria, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é elevado. Depois do sistema bancário, a indústria é a que melhor remunera. Então, uma política que fortaleça, incentive e aumente a produção industrial é essencial.

 

[PE] – A produção industrial brasileira está em queda. O que fazer para retomar a industrialização?

Aguiar – O que nós precisamos, além de uma política industrial, é de mecanismos que possibilitem a competitividade da indústria. Isso passa por uma melhor infraestrutura, precária no Brasil, por uma desburocratização e pela reforma tributária. Hoje nós exportamos impostos. A carga tributária é extremamente elevada. Mas também passa por um processo de capacitação dos nossos industriários, dos nossos gestores e dos nossos trabalhadores, até para nos adaptarmos à nova realidade mundial, de uma indústria muito mais moderna.

 

[PE] – Como o senhor avalia o cenário político-institucional do país no primeiro semestre do ano?

Aguiar – Acho que o governo federal, talvez até por inexperiência, não teve uma condução tão precisa na relação com o Congresso e houve alguns desencontros. Mas isso vai se resolver agora no segundo semestre. O entendimento com o Congresso deve fluir melhor. Embora os poderes sejam autônomos, independentes

 

Devem exercer o diálogo constantemente para que as soluções fluam com mais celeridade.

 

[PE] – E quanto ao governo estadual?

Aguiar – O estadual também é um governo novo, sem experiência. Mas está num bom caminho, abrindo espaço para sermos atendidos, vem demonstrando interesse em melhorar a eficiência do Estado, e isso é extremamente interessante. Nós apoiamos todas as ações neste sentido. É preciso que se tenha a clara visão de que é preciso fazer investimentos na infraestrutura, fundamental para melhorar o desempenho de Santa Catarina.

 

 

Por Andréa Leonora e Murici Balbinot

Foto: Marcos Campos

redacao@peloestado.com.br

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