Contra o preconceito: exposição leva os orixás do Batuque para a Praça Nereu Ramos

Neste domingo (15), a Praça Nereu Ramos se tornou um pouco mais inclusiva com a exposição do projeto “De Bará à Oxalá: Xilogravando os Orixás do Batuque”, que levou xilogravuras retratando as divindades africanas para o coração da cidade. A exposição seria no sábado (14), mas foi transferida devido à chuva. No domingo, as obras […]

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Neste domingo (15), a Praça Nereu Ramos se tornou um pouco mais inclusiva com a exposição do projeto “De Bará à Oxalá: Xilogravando os Orixás do Batuque”, que levou xilogravuras retratando as divindades africanas para o coração da cidade.

A exposição seria no sábado (14), mas foi transferida devido à chuva. No domingo, as obras ficaram expostas ao público leigo e também adeptos das religiões de matriz africana, que puderam conferir os trabalhos.

Exposição retrata Orixás por meio de xilogravuras – Foto: Marcus Matildes

A advogada Andressa Monteiro levou a filha Agatha, de 10 anos, para conferir as obras. Ela está visitando a cidade e percebeu a exposição quando passava na Praça Nereu Ramos. “É importante que ela conheça, aprenda sobre diversas religiões. Eu acho que, pra formação dela, eu tenho que dar espaço para várias visões, para que ela, tendo conhecimento, desenvolva e encontre o caminho dela”, ressalta a mãe. “Eu achei o trabalho muito bonito, o acabamento é bem legal, o uso das cores, a exposição muito bonita”, comentou ela. Agatha também gostou das peças. “As pinturas têm cores fortes, muito bonitas”, comentou a menina.

Exposição retrata Orixás por meio de xilogravuras – Foto: Marcus Matildes

Para as pessoas adeptas da religião, também é uma oportunidade de se sentirem representados, acolhidos e integrados à sociedade. “A gente sabe que as tradições religiosas de matriz africana, apesar de presentes, acabam não ocupando espaços, não sendo vistas. E hoje, a gente está no centro da cidade, está nesse local. Além de podermos, de alguma forma, levar esse sentimento de pertencimento ao povo de Axé, também podemos mostrar para a população que sim, estamos presentes”, ressalta a artista visual Viviane Rocha, criadora das obras.

Para o babalorixá Everton Florentino, do Ilê Oxalá e Iemanjá, de Criciúma, templo religioso que integra o Batuque (tradição Cabinda), Umbanda e Quimbanda, a exposição é uma forma de mostrar que essa cultura também estão presentes na cidade. “O Rio Grande do Sul é um dos berços das religiões de matriz africana no Brasil. Nos anos 60, as pessoas começaram a trazer a religião para cá para Criciúma e região. Por aqui existem muitas casas, batuqueiros, umbandistas, mas tudo sempre foi feito de modo oculto, em silêncio, devido ao preconceito”, explica o babalorixá.

Pai Everton de Oxalá e Viviane Rocha conferindo as artes – Foto: Marcus Matildes

Conforme ele, os movimentos artísticos e outros eventos permitem que as pessoas dessa fé possam manifestar a crença de forma mais livre, sem se esconder. “E também são formas para vencer o preconceito. Como o termo já deixa claro, isso acontece pela falta de conhecimento, é ‘anterior ao conceito’. Esse tipo de movimento permite que as pessoas tenham um conceito correto sobre a religião, conheçam, entendam e também possibilita que deixemos o preconceito para trás”, frisa Pai Everton de Oxalá, como é chamado na tradição do Batuque.

Caso de intolerância registrado durante a montagem

Apesar do movimento ser pensado para levar conhecimento e enfrentar o preconceito, ele ainda existe. Durante a manhã, na montagem da exposição, um homem hostilizou a artista e uma amiga, que auxiliava ela na preparação das obras para o evento. “Ele veio nos ameaçando e dizendo que era pra tirar uma exposição ali, que essa cidade não era para esse tipo de coisa”, conta Viviane. “Ele tentou pegar em algumas obras, tentou intimidar, mas chamamos a polícia e ele foi embora pouco tempo depois”, relatou a artista. Com a chegada das forças de segurança, um boletim de ocorrência foi registrado por intolerância religiosa contra o homem.

Sobre a artista

Viviane Rocha nasceu em Mato Grosso e vive em Santa Catarina desde 2016. Iniciou a vida artística na fotografia e atuou na ONG Instituto Usina, em Cuiabá, realizando exposições e projetos de atuação regional. Em Santa Catarina, atuou no Portal Catarinas e no projeto “Artes de pesca: saberes e fazeres dos pescadores tradicionais da Costeira do Pirajubaé”, da Fundação Catarinense de Cultura. Atua como professora de Literatura e Língua Portuguesa e produz xilogravuras para expressão própria. É filha de Ogum pela Nação Cabinda, uma das vertentes do Batuque do Rio Grande do Sul.

A exposição faz parte do projeto “De Bará à Oxalá: Xilogravando os Orixás do Batuque” foi selecionado por meio do Edital Cultura Criciúma N° 001/2023 – Lei Completamente Nº 195/2022 (Lei Paulo Gustavo), através do município de Criciúma.

Obras foram expostas nesse domingo na Praça Nereu Ramos – Foto: Juliane Souza


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